Por Julia Caon Froener, Relações Públicas e gerente de Projetos da Fundação Gerações*
Desde meu retorno de Belém, onde estive por duas semanas vivendo a COP30 e tudo mais que aconteceu na cidade, me deparo com a pergunta: E aí, como foi Belém? A COP saiu vencedora ou perdedora?
Depois de três anos ocorrendo em países que não permitiram mobilização nas ruas, a Convenção do Clima chegou a Belém. Essa cidade de muitas cores e sabores, de um povo alegre e acolhedor, foi onde milhares de pessoas se encontraram. A Belém da COP abrigou uma diversidade de pessoas e de eventos, muito além da convenção oficial na Zona Azul.
Espaços como casas paralelas, Cúpula dos Povos, Marcha pelo Clima, banhos de rio e novos espaços culturais foram palco de encontros entre povos que levaram suas próprias pautas para o jogo da democracia. Clima é uma questão transdisciplinar, e ficou claro que todos os setores da sociedade já estão atuando com essa variável em suas pautas históricas. Essa diversidade toda de visões de mundo, prioridades e linguagens deixou Belém do jeitinho bem brasileiro, com aquela junção de gente diferente que estamos acostumados a viver aqui — e que, para quem vem de fora, é tão singular.
A presidência da COP30 convidou o mundo a um movimento baseado em uma atitude brasileira: o mutirão. O povo veio. Além das 195 delegações oficiais de países integrantes da UNFCCC, estavam pela cidade três mil indígenas, 1.300 movimentos sociais internacionais, jovens, cientistas, religiosos, jornalistas, empresários e empreendedores.
Mas qual a centralidade que une essa diversidade toda? A resposta está na ciência: a crise climática é urgente e ameaça a vida de todos que vivem na Terra. Os cientistas estavam lá, não deixando os tomadores de decisão esquecer a gravidade do problema e o pouco tempo que temos para fazer duas coisas: deixar de usar combustíveis fósseis e não desmatar.
Se não fizermos isso, o planeta irá aquecer além dos 2 graus — e o cenário é ruim. Já estamos sentindo o efeito de um planeta 1,5 grau mais quente, o que nos demanda lidar com adaptação junto da mitigação. Mas tudo tem um limite: além de 2,8 graus, não existe possibilidade de adaptação. Este era o nó principal que a conferência oficial precisava desatar.
Com um processo que prevê que decisões só são tomadas por consenso entre 195 países, o tema não foi aprovado nos textos oficiais, mas iniciou um movimento em que 80 países concordam que precisamos avançar. Se não dá para colocar nos textos oficiais, a solução foi iniciar um novo movimento paralelo, capitaneado pela presidência da COP, que já saiu de lá com data de encontro marcada. Isso nos lembra que resolver a crise climática passa por decisões dos governos, mas ganha força quando outras partes participam.
Isso ficou claro no espaço da Agenda de Ação, que reuniu governos subnacionais, empresas, sociedade civil e investidores para mostrar que evoluções estão acontecendo, que o mercado entende que a transição energética é a saída, que a floresta em pé vale muito e que, com boas histórias de projetos que já deram certo, podemos investir no que dá resultado e contar uma história positiva.
Nesse contexto de ação e investimento em soluções que entregam resultado, a filantropia aparece como uma ferramenta de abertura de portas ousadas e fortalecimento de práticas que os territórios já fazem — alguns, há milhares de anos.
O capital filantrópico tem mais liberdade para investir em projetos de risco, inovadores, e iniciar movimentos que beneficiam a sociedade e o clima, trazendo para a conversa os conhecimentos tradicionais e populares. Tais entregas, quando planejadas levando em consideração a conexão com políticas públicas que darão escala de impacto e de financiamento, são importantes vetores de soluções e levam às populações a possibilidade de sonhar com futuros saudáveis, tirando-as de um espaço de resmungo para um espaço de ação e esperança. As conquistas dos movimentos afrodescendentes, indígenas, de gênero e pela transição justa nesta COP demonstram como é possível chegar lá. A hora da colheita chega, resultado de um longo caminho coletivo que não acaba por aqui — afinal, a COP é um processo com alguns eventos no meio.
Ao longo dos 30 anos de COPs, novas variantes entraram no jogo. O jeito de viver da humanidade mudou, e um elemento hoje está mais presente do que nunca: a informação intermediada por telas e plataformas. Temos acesso a tudo — inclusive à desinformação. No jogo dos interesses individuais, somos atravessados por narrativas que nem sempre buscam o bem comum, e mesmo assim 8 entre cada 10 pessoas do planeta querem que seus governos tomem medidas fortes no combate à crise do clima. Um exemplo disso é: se a ciência já disse o que tem que ser feito, as tecnologias para resolver o problema já foram inventadas, o dinheiro para pagar a conta existe por aí e os espaços para negociar estão estabelecidos, por que não estamos resolvendo a crise climática?
Para responder a essa pergunta foi criada uma inovação que muito me inspirou nessa COP: o Balanço Ético Global. Nesse espaço comum que é nosso planeta — que abriga uma diversidade enorme de povos, de bichos e de visões de mundo — pode ser que, nas respostas da ética, debatidas em encontros presenciais onde a mágica do encontro acontece, a gente encontre um caminho de saída. Um caminho coletivo de esperança.
*Julia viajou a Belém com apoio do Programa Transformando Territórios do IDIS.




