Workshops realizados pela Fundação Gerações em quatro cidades do estado formaram 61 lideranças femininas em Gestão Comunitária de Riscos e Desastres, fortalecendo redes locais de prevenção e resposta.
Entre outubro e novembro de 2024, a Fundação Gerações promoveu uma série de quatro workshops voltados à formação de lideranças comunitárias femininas em gestão de riscos e desastres. As atividades ocorreram em Porto Alegre, Estrela, São Leopoldo e Pelotas, cidades fortemente atingidas pela enchente histórica de maio de 2024.
O objetivo foi sensibilizar e capacitar mulheres que já atuam em suas comunidades, especialmente nas periferias, sobre o papel dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs) na prevenção e resposta a emergências. A iniciativa foi realizada em parceria com a ONG Themis – Gênero e Justiça, reconhecida por sua atuação de mais de três décadas na defesa dos direitos das mulheres e no enfrentamento à emergência climática.
“Os encontros foram recebidos como uma etapa complementar à jornada de aprendizagem dessas lideranças, oferecendo novos conceitos e práticas sobre o que fazer diante dos riscos e desastres que a emergência climática traz às suas realidades”, explica Julia Froeder, gerente de Projetos da Fundação Gerações e uma das facilitadoras dos workshops.
Aprendizado e escuta em quatro territórios
Cada encontro teve oito horas de duração e combinou rodas de conversa, dinâmicas coletivas e atividades práticas, criando um espaço de troca de experiências e construção de conhecimento. As participantes receberam um guia impresso sobre NUPDECs e materiais didáticos elaborados pela equipe da Fundação Gerações, em conjunto com a Hopeful – Escola de Desastres e a Defesa Civil de Santa Catarina.
As atividades abordaram temas como o ciclo da gestão de riscos e desastres, planos de contingência, rotas de fuga, kits de emergência e a formação de NUPDECs, com o intuito de fortalecer o protagonismo comunitário na prevenção e resposta a eventos climáticos extremos.
“Se houver outro tipo de desastre, como desmoronamento, incêndio ou vazamento de gás, agora já tenho uma noção de como ajudar as pessoas a se prevenirem ou saírem do local em segurança”, afirmou Sônia Mariza Ribeiro Martins, liderança do território Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre.
Diversidade de realidades e um desafio comum
Os workshops reuniram 61 mulheres, a maioria negras e com mais de 40 anos, que vivem e atuam em comunidades fortemente afetadas pela enchente.
Em Porto Alegre, o encontro no bairro Rubem Berta reuniu 13 mulheres de 10 diferentes territórios da capital. Em Estrela, no Vale do Taquari — região onde 75% da cidade ficou submersa —, participaram 10 lideranças, em sua maioria produtoras rurais que perderam casas e animais.
“Desastres vão continuar acontecendo, não foi o primeiro e nem será o último. O que vamos fazer? Ajudar uns aos outros e nos preparar. Estou saindo daqui com conhecimento de como ajudar outras pessoas”, relatou Sandra Denise Clemente, de Estrela.
Em São Leopoldo, 13 participantes compartilharam experiências de enfrentamento da enchente que atingiu 82% do município. Já Pelotas, banhada pela Lagoa dos Patos, reuniu o maior grupo: 25 mulheres de 13 territórios urbanos periféricos, que vivenciaram os efeitos das águas que chegaram por último à região sul do estado.
Do trauma à ação coletiva
Grande parte das participantes relatou ainda sentir os impactos psicológicos das enchentes. O medo da chuva e a lembrança do desastre são recorrentes, mas o processo formativo ajudou a transformar a dor em mobilização.
“Eu tenho certeza que com esse aprendizado vou saber como agir e não ter aquele pânico, aquele trauma horrível que eu tive na enchente passada. Sei que agora eu vou conseguir resolver muito melhor as coisas com a minha comunidade, que eu amo de paixão”, comentou Gilda Maria Macedo Alves, vice-presidente do Instituto Hélio D’Angola, de Pelotas.
Segundo levantamento feito ao final dos encontros, 63% das mulheres afirmaram estar muito cientes dos riscos que correm em seus territórios, embora a maioria nunca tivesse ouvido falar em NUPDECs antes do projeto. Após a capacitação, muitas reconheceram que já realizavam ações típicas de um núcleo comunitário, mesmo sem o respaldo técnico, e demonstraram disposição para formalizar novas iniciativas locais.
Ao fim do ciclo, surgiram movimentos espontâneos para a criação de NUPDECs em diferentes bairros e comunidades. Alguns grupos decidiram atuar coletivamente, apoiando a formação de núcleos múltiplos em seus territórios.
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Créditos: Leo Zanini | Luisa Rosa Oliveira
















