*Erica BomFim Bordin
Representar a Fundação Gerações no XII Seminário da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação (RBMA), realizado em Brasília entre 18 e 21 de agosto, trouxe uma reflexão que considero especialmente importante para as organizações da sociedade civil: afinal, para que estamos avaliando?
Em um cenário marcado por desigualdades persistentes, mudanças climáticas, transformações tecnológicas e crescente complexidade dos problemas públicos, monitorar e avaliar projetos sociais não pode significar apenas reunir indicadores e comprovar resultados. A avaliação precisa contribuir para uma pergunta mais ampla: o que estamos aprendendo com aquilo que fazemos e como esse aprendizado pode orientar decisões melhores?
Essa mudança de perspectiva também passa pela relação entre organizações e financiadores. O monitoramento não deve ser compreendido apenas como um mecanismo de fiscalização ou prestação de contas. Ele pode ser uma ferramenta estratégica para acompanhar a implementação, identificar desafios, ajustar rotas e tomar decisões a partir de evidências.
Para isso, é fundamental que financiadores, organizações executoras e comunidades compartilhem entendimentos sobre os objetivos dos projetos e sobre aquilo que precisa ser observado ao longo do caminho. O processo de monitoramento e avaliação ganha mais sentido quando suas perguntas são construídas coletivamente e quando os indicadores escolhidos ajudam, de fato, a compreender o problema que se pretende enfrentar.
Medir mais não significa necessariamente compreender melhor.
Em projetos sociais, especialmente aqueles desenvolvidos por organizações com equipes e recursos limitados, existe o risco de transformar a avaliação em uma atividade burocrática, produzindo uma quantidade crescente de informações que pouco contribuem para a tomada de decisão.
Por isso, uma avaliação relevante é aquela capaz de medir o que importa.
E isso significa também reconhecer que evidências não são apenas números. Dados quantitativos são fundamentais, mas precisam dialogar com a percepção de quem implementa as ações, com a experiência das pessoas beneficiárias e com os conhecimentos produzidos nos próprios territórios.
Essa pluralidade é especialmente importante para as organizações da sociedade civil, cuja atuação está diretamente conectada às comunidades. O desafio é produzir evidências com rigor técnico sem permitir que os processos de avaliação criem uma distância entre as organizações e as pessoas para quem os projetos são desenvolvidos.
Outro aprendizado importante é que o monitoramento precisa acontecer ao longo do processo, e não apenas ao final de um projeto. Ciclos mais curtos de acompanhamento permitem identificar o que está funcionando, compreender o que não está e fazer ajustes enquanto ainda há tempo para mudar os caminhos.
Nesse sentido, o erro também produz evidências.
Quando um resultado esperado não acontece, a avaliação pode ajudar a compreender por quê. Mais do que apontar uma falha, trata-se de identificar os fatores que influenciaram a implementação, aprender com a experiência e utilizar esse conhecimento para aprimorar as próximas decisões.
A chegada da Inteligência Artificial acrescenta uma nova camada a esse debate. A tecnologia pode ampliar a capacidade de organizar e analisar informações, integrar fontes de dados e dar mais agilidade aos processos. Mas eficiência tecnológica não substitui reflexão crítica. Os recursos disponíveis precisam estar a serviço dos objetivos dos projetos, dos valores públicos e do compromisso com as populações envolvidas.
Para as organizações da sociedade civil, talvez esse seja um dos principais desafios: construir uma cultura de monitoramento e avaliação que combine rigor, participação, aprendizagem e capacidade de adaptação.
Uma cultura na qual os dados não sejam produzidos apenas para cumprir uma exigência, mas utilizados para fazer perguntas melhores.
Na qual as comunidades não sejam apenas fontes de informação, mas participantes do processo de avaliação.
E na qual os resultados não sejam vistos como uma fotografia definitiva do projeto, mas como evidências que ajudam a decidir os próximos passos.
No dia a dia do nosso trabalho na Fundação Gerações, entendemos que monitorar e avaliar não deve ser um fim em si mesmo, mas sim uma bússola. Uma bússola que ajude organizações, financiadores e comunidades a compreender melhor os desafios que enfrentam, reconhecer o que funciona, aprender com o que não funciona e construir, de forma coletiva, caminhos mais efetivos para a transformação social.
*Analista de Projetos, da Fundação Gerações

