Roda de conversa promovida pela Fundação Gerações reuniu especialistas, lideranças comunitárias e representantes de organizações que atuam com mulheres na Região Metropolitana de Porto Alegre
Especialistas, lideranças comunitárias e representantes de organizações da sociedade civil participaram, no dia 4 de março, em Porto Alegre, da roda de conversa “O papel das organizações sociais na promoção dos direitos das mulheres”, promovida pela Fundação Gerações no espaço Cirandar.
O encontro debateu os desafios do enfrentamento à violência de gênero e a importância de fortalecer as redes de apoio nos territórios e foi mediado pela advogada e mestre em Antropologia Social Renata Teixeira Jardim . A atividade reuniu participantes que atuam diretamente com mulheres na Região Metropolitana de Porto Alegre e integrou a agenda da organização voltada à promoção de direitos e ao fortalecimento de lideranças femininas.
Durante o diálogo, a presidente do Conselho Estadual dos Direitos das Mulheres do Rio Grande do Sul (CEDM-RS), Natália Fetter, provocou as participantes com um questionamento direto: “Quantas de nós sabemos como encaminhar uma denúncia de violência? Nós confiamos no sistema? Sabemos para quem ligar, quem pode dar apoio quando isso acontece?” As perguntas revelam uma fragilidade ainda presente na rede de atendimento.
“Muitas vezes ouvimos: ‘Para quem eu ligo? Quem vai me ajudar?’. As mulheres não sabem se serão acolhidas. Há casos em que chegam à delegacia e precisam denunciar ao lado do agressor. Não há espaço adequado, não há profissionais para fazer esse acolhimento na ponta. Então como esperar que mulheres que dependem economicamente do agressor, que têm filhos para criar, procurem esses espaços se elas não sabem se serão protegidas?”, questionou.
Falta de políticas públicas e desestruturação da rede
Para a advogada Jéssica Miranda Pinheiro, mestranda em Estudos Organizacionais na Administração e diretora executiva da THEMIS – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, o contexto atual é desafiador para quem atua no enfrentamento da violência contra mulheres. “Passamos por um momento de crescentes desafios frente ao enfrentamento à violência contra a mulher. Temos dados da Lupa Feminista que apontaram 89 feminicídios no ano passado, enquanto os dados da Segurança Pública indicam 80. Ao mesmo tempo, percebemos uma desestruturação da rede e de várias políticas públicas”, afirmou.
Segundo ela, essa realidade tem sido observada diretamente nos territórios. “No início deste ano estivemos com as Promotoras Legais Populares em todos os territórios onde existe o serviço de informação à mulher e percebemos o desmonte das políticas públicas nas cidades, no Estado e no País. Não existe uma solução simples para algo tão complexo.”
A advogada destacou ainda que o fortalecimento das políticas públicas depende de orçamento efetivo. “O primeiro ponto que a gente vem estudando é a necessidade de termos, de fato, um orçamento para as políticas para mulheres. Um orçamento robusto, real, que não fique apenas no papel. Nos últimos anos houve redução de recursos em todos os níveis. Se o orçamento não se reflete na política pública, ela não chega a quem precisa.”
Jéssica também ressaltou a importância da prevenção e da ampliação do debate social. “A prevenção é fundamental. Precisamos expandir essa conversa e é fundamental que os homens entrem nessa roda.”
Ela citou ainda a assinatura recente do Pacto Brasil contra os Feminicídios, que reúne os três poderes. “Como organizações da sociedade civil, precisamos ficar vigilantes a esse pacto e verificar como os poderes estão atuando em relação a ele.”
Racismo estrutural e violência de gênero
A especialista em Direitos Humanos e fundadora da Organização Maria Mulher, Maria Conceição Fontoura, abordou o impacto do racismo estrutural na violência de gênero.
Ela pontuou que passados dez anos da criação da Lei do Feminicídio, o número de casos cresceu significativamente no país. “Os registros de feminicídios aumentaram 176% em dez anos, passando de 527 casos em 2015 para 1.455 em 2024.”
O dado faz parte da pesquisa “Quem são as mulheres que o Brasil não protege?”, lançada em novembro de 2025 pela Fundação Friedrich Ebert e apresentada na Câmara dos Deputados durante a campanha 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. “E esses dados se referem às mulheres negras – ainda as maiores vítimas de feminicídio no país, representando 68% dos casos na última década”, destacou.
Para a pesquisadora, esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas estruturadas e efetivas. “É fundamental que as secretarias das mulheres tenham estrutura, orçamento e equipes multidisciplinares capazes de enfrentar essa realidade.”
Representatividade e tomada de decisão
Gabriela Souza, fundadora de um escritório de advocacia que atua exclusivamente na defesa de mulheres, chamou atenção para o impacto da baixa representação feminina nos espaços de poder. “Somos um país em que mais de 50% da população é formada por mulheres e ainda assim temos uma representatividade muito pequena no Parlamento.” O mapa Mulheres na Política 2025, elaborado pela União Interparlamentar (UIP) e ONU Mulheres com 189 países, coloca o Brasil na 133ª posição em representatividade parlamentar feminina.
Para ela, essa realidade influencia diretamente a formulação de políticas públicas. “Quem está fazendo política pública para as mulheres no Brasil não somos nós. Quando olhamos para o Judiciário ou para os espaços de decisão, vemos poucas mulheres e um número ainda menor de mulheres negras.”
A advogada também chamou atenção para o cenário eleitoral e para a necessidade de ampliar a presença feminina na política. “Em ano eleitoral, quando juntamos a falta de representatividade com a falta de recursos para políticas públicas voltadas às mulheres, precisamos votar em candidatas realmente comprometidas com a pauta de gênero, raça e classe.”
Experiências nos territórios
Entre os depoimentos das participantes, a Promotora Legal Popular Maria Guaneci Marques de Ávila, moradora do bairro Restinga, destacou a importância das redes de apoio comunitárias. Há mais de 30 anos atuando no acolhimento de mulheres, ela relatou sua experiência junto a serviços de saúde, educação e assistência social no território. “Encontros como esse são importantes para conhecer mulheres com muita luta na garantia dos direitos das mulheres. É isso que fortalece diante de um momento de tanta violência e desigualdade.”
Para ela, cada caso de feminicídio impacta toda a rede de mulheres que atua na proteção. “Quando uma mulher morre, sentimos que nossa força também fragiliza, porque não conseguimos dar conta de salvar aquela vida.”
O único homem presente no encontro, André Furtado, representante do coletivo POA Inquieta, também foi convidado a se manifestar. “É uma experiência importante ouvir o trabalho que as mulheres precisam fazer por causa de uma sociedade patriarcal. Eventos como esse deveriam ter mais homens participando. O homem precisa se colocar nessa luta e defender abertamente a igualdade de gênero.”
A roda de conversa integrou uma agenda mais ampla da Fundação Gerações voltada ao fortalecimento das organizações da sociedade civil. Em novembro do ano passado, a instituição promoveu o workshop Direitos e Políticas Públicas, capacitando 25 lideranças de seis territórios da Região Metropolitana de Porto Alegre para atuarem como multiplicadoras de informação sobre redes de proteção e políticas públicas para mulheres.
Guia de apoio e proteção às mulheres
Durante o evento, a Fundação Gerações lançou o Guia de Apoio e Proteção às Mulheres, A publicação foi elaborada sob a curadoria da advogada Renata Teixeira Jardim e está disponível gratuitamente no site da Fundação Gerações . Além da versão digital, as lideranças participantes do encontro receberam um folder com orientações práticas sobre como agir em casos de violência e um cartão de bolso com QR Code para acesso rápido à publicação.
De acordo com a diretora executiva da Fundação Gerações, Karine Ruy, a iniciativa busca fortalecer as redes de apoio que atuam nos territórios. “Acreditamos que toda mulher tem o direito de viver com dignidade, segurança e liberdade. Este guia é parte do nosso compromisso com a construção de trajetórias de vida mais seguras, justas e cheias de possibilidades”, afirmou.
Créditos: Isabella Rieger
Mais informações:
Néia Olivveira
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