Oficina da Fundação Gerações reuniu lideranças de 14 territórios do Rio Grande do Sul, que saíram do encontro com projetos para a criação de seus NUPDECs.
Lideranças comunitárias de 14 territórios, de oito municípios, do Rio Grande do Sul participaram, no dia 15 de agosto, de uma oficina para elaboração de projetos para criação de Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs). Promovida pela Fundação Gerações, a atividade marcou a segunda etapa do assessoramento iniciado em maio e teve como resultado a construção dos projetos que serão apresentados pelas organizações para a implantação dos núcleos em seus territórios. A iniciativa integra o programa Gestão Comunitária de Riscos e Desastres, da Fundação Gerações, que, em abril, lançou a chamada pública em parceria com a Caterpillar Foundation.
A programação reuniu, na primeira parte do dia, representantes da Defesa Civil de Porto Alegre, do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) e do NUPDEC Honocuno, que contribuíram com informações e reflexões sobre a gestão de riscos climáticos e a importância da participação das comunidades na preparação para eventos extremos.
Conhecimento das comunidades é fundamental
Na abertura do encontro, a diretora executiva da Fundação Gerações, Karine Ruy, reiterou que a participação comunitária é fundamental para a articulação da sociedade civil e para a proteção das pessoas diante dos riscos de eventos climáticos extremos, previstos com a ocorrência do El Niño. “Não são só as chuvas que preocupam, mas também o calor, que adoece e mata pessoas”, salientou.
A coordenadora do Gabinete de Estudos Climáticos (GabClima), do Ministério Público do Rio Grande do Sul, procuradora Sílvia Cappelli, compartilha desse entendimento. Para ela, o conhecimento produzido pelas próprias comunidades é essencial para compreender e agir conforme os riscos existentes em cada território.
A promotora de Justiça foi enfática ao falar sobre a importância de ouvir as comunidades. “Estou aqui para aprender com vocês. São as comunidades que sabem quando e onde ocorrem os riscos, e conhecem quem vive lá.”
O coordenador da Defesa Civil de Porto Alegre, Cel. Evaldo Rodrigues de Oliveira, explicou que os NUPDECs são um dos pilares do Plano de Contingência do município, reeditado em 2026. Para ele, o documento ainda apresenta um olhar predominantemente institucional e, por isso, a interação direta com as comunidades é tão importante. “São as pessoas, que vivem nos territórios, que têm a verdadeira percepção dos riscos”, afirmou.
Cenários climáticos exigem preparação
O meteorologista e consultor ambiental José Felipe Farias apresentou os prognósticos climáticos para os próximos meses. De acordo com a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), o fenômeno El Niño teve seu estabelecimento em 11 de junho de 2026 e, em 29 de julho, atingiu o patamar de evento forte. A Defesa Civil pública notas técnicas a cada fato relevante sobre a evolução do fenômeno, e os nupdecs podem ter acesso a estes boletins para se preparar.
Além das informações técnicas, a programação possibilitou a troca de experiências entre representantes de diferentes territórios, muitos deles diretamente afetados pela inundação de 2024.
O tesoureiro e administrador da Associação da Horta Comunitária União dos Operários, Marlon Eduardo Costa, compartilhou a experiência do NUPDEC Honocuno, no bairro Mathias Velho, em Canoas. Segundo ele, para que a mobilização comunitária seja efetiva, é necessário ampliar o diálogo e chegar a diferentes segmentos do território. “É preciso bater na porta de todo mundo, inclusive dos comerciantes”, destacou.
Da experiência à construção de planos de ação
À tarde, os representantes das organizações passaram para a parte prática da elaboração dos projetos dos NUPDECs, com base em uma metodologia própria da FG. Também conheceram o projeto “Tchê Prepara”, desenvolvido pela Agência da ONU para as Migrações (OIM), com o objetivo de fortalecer e promover a articulação intersetorial na região do Vale do Taquari.
Gilda Maria Macedo Alves, do Instituto Hélio d’Angola, de Pelotas, saiu da oficina mais tranquila diante das informações que recebeu. Para ela, o conhecimento adquirido ajudará a fortalecer a comunicação com a comunidade diante de possíveis eventos extremos. “A gente sabe que vão ter problemas climáticos sérios e até gravíssimos, mas vai ser diferente. Eu vou conseguir me comunicar com a minha comunidade com mais tranquilidade e passar mais tranquilidade para eles. Me sinto mais segura agora. Estou muito, muito feliz de estar aqui em Porto Alegre.”
Moradora de Esteio e representante da Associação de Inclusão Social Mão Solidária e do coletivo Mães da Periferia, Janaina Beatriz Machado dos Santos considera que a interação com outras organizações, muitas delas também impactadas pela inundação de 2024, contribuiu para a construção de novas possibilidades de atuação nas comunidades. “A experiência ajudou a “entender a nossa corresponsabilidade dentro desse contexto”, reflete.
Milena Miranda Bittencourt, da Casa Africana Reino de Oxalá, de Alvorada, também vive em um território extremamente vulnerável. Ao longo da costa do município, passa o Arroio Feijó, onde ocorrem inundações e alagamentos todos os anos. “Nós estamos saindo daqui hoje com esperança de que a gente consegue fazer alguma coisa positiva para a comunidade, levar esperança, fortalecimento e conhecimento.”
No Morro da Polícia, no bairro Partenon, em Porto Alegre, os principais riscos identificados por Daisy Cristina Martins dos Santos, do Instituto Multiplicar Amor Incluir Saber, são os ventos e os deslizamentos, agravados pelas dificuldades de acesso ao território. Segundo ela, na grande maioria das ruas, sequer entram caminhões do Corpo de Bombeiros ou ambulâncias.
Daisy volta para a comunidade com disposição para preparar um plano de ação e mobilizar os moradores. “Quero repassar para eles as informações que criamos aqui, com a esperança de enfrentar os eventos climáticos com mais segurança, com menos medo e com a certeza de que eu não sou a mesma Daisy que aqui entrou, porque informação é tudo.”
A próxima etapa do ciclo de Assessoramento para Criação de NUPDECs prevê a apresentação, pelas organizações participantes, dos projetos para criação dos núcleos. Após validados, cada iniciativa receberá R$ 10 mil para implementar as ações acordadas.
Credito das fotos: Leo Zanini
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